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Evidência comentada

E o cirurgião? O que o ensaio ROBOGYN mediu sobre carga física no console

Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro·25 de agosto de 2026

O ROBOGYN-1004, ensaio randomizado francês conduzido em 13 centros, mediu a carga física do cirurgião durante cirurgia oncológica ginecológica minimamente invasiva: 369 pacientes analisadas, 176 por via robótica e 193 por laparoscopia padrão. A postura foi significativamente mais exigente na laparoscopia em todos os segmentos corporais exceto o dorso, e o esforço físico percebido foi menor na robótica. É o desfecho mais consistente da temporada — e é um desfecho no cirurgião, não na paciente. Episódio final da temporada "Robótica × laparoscopia: os dados".

A dúvida

Nos três episódios anteriores, a pergunta foi sempre sobre a paciente: complicações, custo, tempo de cirurgia. Neste episódio ela muda de lado, e é uma pergunta que raramente se faz em público: o que a escolha da plataforma faz com quem opera?

Existe um ensaio randomizado que mediu isso.

O que o estudo fez

O ROBOGYN-1004 é um ensaio clínico randomizado multicêntrico francês, com recrutamento entre dezembro de 2010 e dezembro de 2015 em 13 centros, publicado no Annals of Surgical Oncology com Judicaël Hotton como primeiro autor.

Foram analisadas 369 pacientes por protocolo: 176 operadas com assistência robótica e 193 por laparoscopia padrão, todas com câncer ginecológico elegível para cirurgia minimamente invasiva.

O ponto distintivo está no que foi medido. O desfecho aqui não é da paciente: é a carga física do cirurgião, avaliada pela escala de Borg a cada hora de cirurgia, e a percepção de carga de trabalho pelo NASA-TLX ao final do procedimento.

O número que importa

A postura durante a laparoscopia padrão foi significativamente mais exigente em todos os segmentos corporais avaliados, com uma exceção: o dorso.

O desconforto cresce com a duração. Ao longo de até quatro horas de cirurgia, mãos e braços, pescoço e pernas apresentaram piora progressiva na laparoscopia em comparação com a robótica.

A atividade física percebida e a demanda sobre as capacidades físicas foram avaliadas como maiores na laparoscopia (p < 0,01). O esforço físico percebido durante a cirurgia foi menor na robótica, independentemente da complexidade do procedimento.

O que o estudo não responde

Mede percepção e postura, não lesão. Não há nesse artigo qualquer dado indicando que quem opera no console adoece menos, desenvolve menos tendinopatia ou menos doença discal. Demonstrar isso exigiria seguimento de anos, e não foi feito.

Não é desfecho da paciente. Nada neste estudo trata de complicação, sangramento, recidiva ou sobrevida.

É cirurgia oncológica, não endometriose. A transposição para outro contexto cirúrgico não é automática.

As escalas são subjetivas e não há cegamento. É uma limitação inevitável — não se pode cegar um cirurgião quanto à via que está usando —, mas ela existe e precisa ser considerada.

A carga da equipe não foi capturada. O esforço do auxiliar junto à mesa e da equipe de sala não foi medido. Parte do esforço não desaparece: muda de lugar.

O que eu faço com isso

Dos quatro artigos desta temporada, este é aquele em que o dado é mais consistente em favor da robótica — e é preciso dizer com clareza que se trata de um desfecho no cirurgião, não na paciente.

Isso não é pouco. Quem passa seis horas em pé, com os ombros em abdução e o pescoço fletido, sabe do que se trata. Longevidade profissional é um assunto legítimo em cirurgia. Mas é exatamente isso, e não mais que isso: conforto e postura de quem opera, medidos por escalas de percepção.

Fechando a temporada. Em complicações, empate. Em custo, desvantagem. Em endometriose, sem diferença no cenário estudado. Em ergonomia do cirurgião, vantagem. E, atravessando os quatro artigos, a mesma limitação: os casos mais difíceis, que são os que mais interessam a quem opera endometriose profunda, ainda não foram estudados.

Dizer que robótica e laparoscopia são complementares não é diplomacia. É o que os dados sustentam hoje.

A evidência informa. A decisão é sua, com a sua paciente.

Para levar

  • O ROBOGYN-1004 randomizou 369 pacientes em 13 centros e mediu a carga física do cirurgião.
  • A postura foi mais exigente na laparoscopia em todos os segmentos corporais, exceto o dorso.
  • O desconforto aumenta com a duração da cirurgia, em até quatro horas de acompanhamento.
  • O esforço físico percebido foi menor na robótica, independentemente da complexidade.
  • O estudo mede percepção e postura, não lesão musculoesquelética, e não avalia desfecho da paciente.
  • Síntese da temporada: empate em complicações, desvantagem em custo, ausência de diferença em endometriose e vantagem ergonômica para quem opera — com os casos mais complexos ainda sem resposta.
Referência

Hotton J, Bogart E, Le Deley MC, Lambaudie E, Narducci F, Marchal F. Ergonomic assessment of the surgeon's physical workload during robot-assisted versus standard laparoscopy in a French multicenter randomized trial (ROBOGYN-1004 trial). Ann Surg Oncol. 2023;30(2):916-923. https://doi.org/10.1245/s10434-022-12548-3 Lawrie TA, Liu H, Lu D, Dowswell T, Song H, Wang L, Shi G. Robot-assisted surgery in gynaecology. Cochrane Database Syst Rev. 2019;4(4):CD011422. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011422.pub2

doi.org/10.1245/s10434-022-12548-3
Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza RibeiroCRM 85949/SP · RQE 56380 · Ginecologia e Obstetrícia
Prof. Dr. Paulo Ayroza RibeiroCRM 60.560/SP · RQE 77239 · Ginecologia e Obstetrícia