Quanto custa a diferença entre robótica e laparoscopia na histerectomia
Se o desfecho é semelhante, a pergunta seguinte é o custo. A coorte publicada no JAMA em 2013 analisou 264.758 mulheres operadas de histerectomia por doença benigna em 441 hospitais norte-americanos. Após pareamento por escore de propensão, as complicações foram praticamente idênticas (5,5% contra 5,3%), enquanto o custo total foi US$ 2.189 maior por caso na robótica. Segundo episódio da temporada "Robótica × laparoscopia: os dados".
A dúvida
No episódio anterior, a revisão Cochrane mostrou que robótica e laparoscopia não diferem de forma demonstrável em complicações na histerectomia por doença benigna. Quando duas opções empatam no desfecho, a pergunta seguinte é inevitável: quanto custa cada uma?
Existe um número publicado no JAMA que se tornou referência dessa discussão.
O que o estudo fez
Jason Wright e colaboradores, da Universidade Columbia, publicaram em 2013 uma coorte de 264.758 mulheres submetidas a histerectomia por doença ginecológica benigna em 441 hospitais dos Estados Unidos, entre 2007 e 2010.
O desenho precisa ser compreendido corretamente. Não é um ensaio randomizado. É um estudo de base administrativa hospitalar, com pareamento por escore de propensão, técnica que aproxima os grupos comparados a partir das características registradas.
Foram avaliados complicações ocorridas durante a internação, transfusão, reoperação, tempo de internação, óbito e custo. O estudo também descreveu a velocidade de adoção da tecnologia.
O número que importa
Dois números.
O primeiro: complicações gerais de 5,5% na robótica contra 5,3% na laparoscopia — risco relativo de 1,03, com intervalo de confiança de 0,86 a 1,24. Sem diferença.
O segundo: o custo total foi US$ 2.189 maior por caso na robótica (intervalo de confiança de US$ 2.030 a US$ 2.349).
Há ainda um dado de contexto que ajuda a entender o cenário: a histerectomia robótica passou de 0,5% de todas as histerectomias em 2007 para 9,5% em 2010. Nos hospitais que dispunham da plataforma, chegou a 22,4% do total três anos após o primeiro procedimento robótico. No mesmo período, as taxas de histerectomia abdominal caíram — inclusive em hospitais sem robô.
Pacientes operadas por via robótica tiveram menor chance de internação superior a dois dias (19,6% contra 24,9%), enquanto transfusão e alta para instituição de cuidados foram semelhantes.
O que o estudo não responde
A janela temporal é antiga. Os dados vão até 2010 e o artigo é de 2013. Desde então mudaram preços, plataformas disponíveis e o grau de treinamento de uma geração inteira de cirurgiões.
Não é randomizado. O pareamento por escore de propensão aproxima os grupos quanto ao que foi registrado, mas não elimina o viés de indicação: é plausível que os casos encaminhados à plataforma fossem sistematicamente diferentes daqueles operados por laparoscopia.
Só captura o que aconteceu dentro da internação. Complicações após a alta não entram nessa contagem.
Não mede dor, retorno ao trabalho, satisfação nem desfechos de longo prazo. O estudo responde sobre morbidade hospitalar imediata e custo, e apenas sobre isso.
Não se transporta diretamente para o Brasil. A estrutura de custos e o modelo de reembolso norte-americanos são outros. O número serve como ordem de grandeza e como método de raciocínio, não como valor aplicável à nossa realidade.
O que eu faço com isso
Custo não é argumento contra tecnologia. É um dado que precisa entrar na conversa, e que na prática costuma ficar fora dela.
A leitura que faço é institucional: quando o desfecho clínico é semelhante, a diferença de custo precisa ser justificada explicitamente por outra coisa — complexidade do caso, finalidade de ensino, ergonomia de quem opera, disponibilidade de equipe. O problema não é a diferença de custo existir; é ela permanecer implícita.
A evidência informa. A decisão é sua, com a sua paciente.
Para levar
- Em 264.758 histerectomias por doença benigna, as complicações foram semelhantes entre robótica e laparoscopia (5,5% contra 5,3%).
- O custo total foi US$ 2.189 maior por caso na robótica.
- A adoção cresceu de 0,5% para 9,5% das histerectomias em três anos.
- É estudo observacional de base administrativa, com dados até 2010, sujeito a viés de indicação.
- Complicações após a alta, dor, satisfação e desfechos de longo prazo não foram avaliados.
- Os valores são do sistema de saúde norte-americano e não se aplicam diretamente ao Brasil.
Wright JD, Ananth CV, Lewin SN, Burke WM, Lu YS, Neugut AI, Herzog TJ, Hershman DL. Robotically assisted vs laparoscopic hysterectomy among women with benign gynecologic disease. JAMA. 2013;309(7):689-98. https://doi.org/10.1001/jama.2013.186 Lawrie TA, Liu H, Lu D, Dowswell T, Song H, Wang L, Shi G. Robot-assisted surgery in gynaecology. Cochrane Database Syst Rev. 2019;4(4):CD011422. https://doi.org/10.1002/14651858.CD011422.pub2
doi.org/10.1001/jama.2013.186