Dicas do console

Dicas do console

Ergonomia no console: poupar o cirurgião

Apresentação: Dra Helizabet Salomão·Entrevistado(a): Dr Mariano Tamura
Resumo

Sentar no console melhora a postura em relação à laparoscopia — e isso está medido em ensaio randomizado. Melhorar não é zerar. A carga do console é estática, o trapézio continua exigido e a queixa musculoesquelética do cirurgião de cirurgia minimamente invasiva é alta o bastante para tirar gente da atividade. Este episódio traz a rotina de ajuste antes de operar e é explícito sobre o que a literatura ainda não sustenta.

A dica em uma frase

Ajustar o console leva um minuto; a coluna cobra pelo resto da carreira.

Por que importa

O problema tem tamanho conhecido. Numa revisão sistemática com metanálise de 21 artigos e 5.828 médicos, a prevalência agrupada foi de 17% para doença degenerativa da coluna cervical, 18% para patologia do manguito rotador, 19% para doença degenerativa lombar e 9% para síndrome do túnel do carpo; a prevalência de dor variou de 35% a 60% conforme o instrumento, e 12% dos acometidos precisaram de afastamento, restrição de prática ou aposentadoria precoce (Epstein, 2018).

Na nossa especialidade, um inquérito com 260 oncoginecologistas encontrou desconforto físico relacionado à cirurgia minimamente invasiva em 88% dos respondentes, com 52% referindo dor persistente — e apenas 16% dos sintomáticos haviam recebido treinamento ergonômico formal (Franasiak, 2012).

Como fazer

Prática do serviço — rotina de equipe, não recomendação com força de diretriz.

  • Ajustar o console antes de acoplar, com calma, e não no meio do caso: altura do visor de modo que o pescoço fique neutro, apoio de braço na altura em que os ombros descem, pedais ao alcance sem esticar o tornozelo.
  • Refazer o ajuste quando o console for compartilhado. Console ajustado para outra pessoa é console desajustado.
  • Manter os ombros baixos e os cotovelos apoiados: quem sustenta o peso do braço no ar por três horas paga em trapézio.
  • Reduzir a força de preensão nos manípulos ao mínimo necessário — a plataforma não pede força.
  • Combinar com o bloco de micropausas do episódio de fadiga: ergonomia boa com imobilidade prolongada continua sendo carga.

O erro comum

Sentar e começar. O ajuste vira algo que se faz "quando incomodar" — e quando incomoda, o caso já está em andamento e ninguém para para corrigir.

O que a evidência sustenta

Sustenta a comparação com a laparoscopia. No ensaio randomizado multicêntrico ROBOGYN-1004, com 369 pacientes em 13 centros (176 em robótica e 193 em laparoscopia padrão na análise por protocolo), a postura foi significativamente mais exigente na laparoscopia em todos os segmentos corporais exceto o dorso, com aumento do desconforto ao longo do tempo para mãos e braços, pescoço e pernas; a atividade física percebida e o esforço percebido foram maiores na laparoscopia (Hotton, 2023).

Sustenta também a ressalva. Numa revisão sistemática de 10 estudos observacionais com eletromiografia, a atividade muscular foi consistentemente menor na robótica no eretor da espinha e no flexor dos dedos, porém maior no trapézio; a carga cognitiva foi menor na robótica em 7 dos 10 estudos (Shugaba, 2022). E, em observação intraoperatória com sensores, o cirurgião no console foi predominantemente estático, com 2 a 5 vezes menos movimentos, relatando dor pós-operatória maior em ombro direito e pescoço (Yu, 2017).

O que a evidência não sustenta, e isto precisa ser dito no ar: não há estudo verificado mostrando que ajustar altura da tela, apoio de braço ou pedais reduza dor ou lesão. O trabalho mais próximo disso testou cadeiras ergonômicas contra cadeira de escritório comum e não encontrou diferença clinicamente relevante, registrando risco moderado a alto de lesão musculoesquelética em ambas (Dalager, 2019). O ajuste do console é raciocínio ergonômico e conforto relatado — não é intervenção com desfecho demonstrado. E o ROBOGYN mede carga e percepção do cirurgião: não diz nada sobre resultado da cirurgia para a paciente, e não autoriza dizer que a robótica é superior.

Para levar

  • O console reduz carga postural comparado à laparoscopia — está medido em ensaio randomizado, e é sobre o cirurgião, não sobre a paciente.
  • Reduzir não é zerar: o trapézio continua exigido e a carga é estática.
  • Ajuste antes de acoplar, e refaça o ajuste em console compartilhado.
  • Não existe estudo que prove que o ajuste reduz dor. Faça mesmo assim, e diga a verdade sobre o que se sabe.

Referências

  1. 1.Hotton J, Bogart E, Le Deley MC, Lambaudie E, Narducci F, Marchal F. Ergonomic assessment of the surgeon's physical workload during robot-assisted versus standard laparoscopy in a French multicenter randomized trial (ROBOGYN-1004 trial). Ann Surg Oncol. 2023;30(2):916-923. https://doi.org/10.1245/s10434-022-12548-3
  2. 2.Shugaba A, Lambert JE, Bampouras TM, Nuttall HE, Gaffney CJ, Subar DA. Should all minimal access surgery be robot-assisted? A systematic review into the musculoskeletal and cognitive demands of laparoscopic and robot-assisted laparoscopic surgery. J Gastrointest Surg. 2022;26(7):1520-1530. https://doi.org/10.1007/s11605-022-05319-8
  3. 3.Epstein S, Sparer EH, Tran BN, Ruan QZ, Dennerlein JT, Singhal D, et al. Prevalence of work-related musculoskeletal disorders among surgeons and interventionalists: a systematic review and meta-analysis. JAMA Surg. 2018;153(2):e174947. https://doi.org/10.1001/jamasurg.2017.4947
  4. 4.Franasiak J, Ko EM, Kidd J, Secord AA, Bell M, Boggess JF, et al. Physical strain and urgent need for ergonomic training among gynecologic oncologists who perform minimally invasive surgery. Gynecol Oncol. 2012;126(3):437-442. https://doi.org/10.1016/j.ygyno.2012.05.016
  5. 5.Yu D, Dural C, Morrow MM, Yang L, Collins JW, Hallbeck S, et al. Intraoperative workload in robotic surgery assessed by wearable motion tracking sensors and questionnaires. Surg Endosc. 2017;31(2):877-886. https://doi.org/10.1007/s00464-016-5047-y
  6. 6.Dalager T, Jensen PT, Winther TS, Savarimuthu TR, Markauskas A, Mogensen O, et al. Surgeons' muscle load during robotic-assisted laparoscopy performed with a regular office chair and the preferred of two ergonomic chairs: a pilot study. Appl Ergon. 2019;78:286-292. https://doi.org/10.1016/j.apergo.2018.03.016

Revisão científica: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM 60.560/SP · RQE 77239)

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Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza RibeiroCRM 85949/SP · RQE 56380 · Ginecologia e Obstetrícia
Prof. Dr. Paulo Ayroza RibeiroCRM 60.560/SP · RQE 77239 · Ginecologia e Obstetrícia