Dicas do console
Setup dos braços: evitando colisão no docking
Colisão de braço quase nunca se resolve durante a cirurgia: ela se resolve antes, no planejamento das portas e no docking. Espaçamento e ângulo definidos no docking evitam a maior parte das colisões. Este episódio descreve a rotina de setup que a equipe usa, o erro que mais se repete e o que a literatura mostra sobre esta fase da cirurgia robótica — que é, medida em sala, a fase mais interrompida de todas.
A dica em uma frase
Espaçamento e ângulo dos braços definidos no docking evitam a maior parte das colisões.
Por que importa
Colisão interrompe o fluxo, custa tempo e desgasta a equipe. E, na quase totalidade das vezes, ela não nasce durante a dissecção: nasce de um docking mal feito, com portas próximas demais ou braços apontando uns para os outros. O tempo que se perde brigando com os braços foi economizado, lá atrás, na hora de marcar a pele.
Há um dado de sala que ajuda a dimensionar isso. Em observação direta de 45 procedimentos robóticos em três hospitais e várias especialidades, o docking foi a fase significativamente mais interrompida de toda a cirurgia, e os pontos críticos identificados foram organização da sala, busca de material, posicionamento do paciente e manobra do robô — nenhum deles um problema de técnica cirúrgica (Cofran, 2022). Em sacrocolpopexia robótica, medindo interrupções de fluxo por hora ao longo de quatro fases, a fase de colocação das portas e docking concentrou 19,2 ± 14,4 interrupções por hora, contra 10,9 ± 5,1 na média do procedimento (Souders, 2019).
Como fazer
Prática do serviço — rotina de equipe, não recomendação com força de diretriz.
- Respeitar a distância mínima entre portas indicada para a plataforma em uso, sem exceção de conveniência.
- Procurar o ponto de trabalho confortável de cada braço e angular os braços para longe uns dos outros, não paralelos.
- Posicionar a porta do assistente fora do arco de trabalho dos braços, e não entre eles.
- Testar o alcance dos alvos antes de começar, ainda com o paciente posicionado e o robô acoplado: se o alvo mais distante já exige o limite do braço, o problema aparecerá na hora pior.
- Tratar o docking como etapa com roteiro próprio, com a sala em silêncio de tarefa — é a fase em que a interrupção é mais provável.
O erro comum
Aproximar as portas para facilitar a própria vida na dissecção. Ganha-se conforto nos primeiros minutos e paga-se com colisão constante pelo resto do caso.
O que a evidência sustenta
Sustenta que o docking é uma fase frágil do ponto de vista de fluxo de trabalho, e que a experiência do cirurgião reduz interrupções — cirurgiões mais experientes tiveram 1,8 interrupção por hora a menos (Souders, 2019). Sustenta também que o tempo de setup e docking tem curva de aprendizado própria, mensurável e independente do procedimento, descrita em 192 casos ginecológicos consecutivos (Panico, 2023).
O que a evidência não sustenta: não existe estudo, nestes trabalhos, ligando colisão de braço a complicação da paciente. O que está medido é interrupção de fluxo, tempo e desgaste de equipe. É motivo suficiente para cuidar do docking; não é motivo para prometer desfecho melhor.
Para levar
- Colisão se resolve no planejamento das portas, não durante a cirurgia.
- Angule os braços para longe uns dos outros e mantenha a porta do assistente fora do arco de trabalho.
- Teste o alcance dos alvos antes de começar.
- O docking é a fase mais interrompida da cirurgia robótica: merece roteiro e silêncio de tarefa.
Referências
- 1.Cofran L, Cohen T, Alfred M, Kanji F, Choi E, Savage S, et al. Barriers to safety and efficiency in robotic surgery docking. Surg Endosc. 2022;36(1):206-215. https://doi.org/10.1007/s00464-020-08258-0
- 2.Souders CP, Catchpole K, Hannemann A, Lyon R, Eilber KS, Bresee C, et al. Flow disruptions in robotic-assisted abdominal sacrocolpopexy: does robotic surgery introduce unforeseen challenges for gynecologic surgeons? Int Urogynecol J. 2019;30(12):2177-2182. https://doi.org/10.1007/s00192-019-03929-6
- 3.Panico G, Mastrovito S, Campagna G, Monterossi G, Costantini B, Gioè A, et al. Robotic docking time with the Hugo™ RAS system in gynecologic surgery: a procedure independent learning curve using the cumulative summation analysis (CUSUM). J Robot Surg. 2023;17(5):2547-2554. https://doi.org/10.1007/s11701-023-01693-w
Revisão científica: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro (CRM 60.560/SP · RQE 77239)