Roda de conversa com jovens cirurgiões

Roda de conversa com jovens cirurgiões

Laser de diodo em cirurgia laparoscópica: o que a evidência sustenta hoje

Apresentação: Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro·Entrevistado(a): Dra. Marta Naomi Nakamae·09 de setembro de 2026

Vídeo em breve — o texto abaixo já traz o conteúdo completo do episódio.

Resumo

A primeira mesa da Roda de conversa com jovens cirurgiões discute um recorte de tese sobre as aplicações do laser de diodo em cirurgia laparoscópica. A conversa percorre o caminho de uma pergunta de pesquisa — por que essa tecnologia, o que o estudo mediu, e sobretudo o que ele não responde — e situa o tema na literatura disponível, em que a evidência de laser de diodo em ginecologia é hoje muito mais histeroscópica do que laparoscópica. O registro é de formação: nenhuma tecnologia é apresentada como superior às demais, e a decisão continua sendo do médico, com a sua paciente.

Por que este episódio existe

A Roda de conversa com jovens cirurgiões é o espaço de mentoria da TV Naveg. O objeto aqui não é a tecnologia em si, e sim o percurso de quem pesquisa: como se escolhe uma pergunta, como se desenha um estudo para respondê-la e como se reconhece, em público, o limite do que se conseguiu responder. O público são ginecologistas em prática e em formação, boa parte deles considerando começar a própria pesquisa.

O tema desta primeira mesa é o laser de diodo aplicado à cirurgia laparoscópica, recorte da tese da convidada. Os números do estudo são apresentados por ela durante a conversa. [a confirmar — a versão definitiva desta página é reimportada com a transcrição da gravação]

O que é o laser de diodo, em termos de sala

Laser de diodo é uma fonte de energia que corta e coagula ao mesmo tempo, conduzida por fibra óptica. Os equipamentos mais recentes usados em ginecologia trabalham com dupla emissão, em 980 e 1470 nanômetros, combinação escolhida para reduzir a dispersão térmica e limitar o dano ao tecido vizinho. Na prática cirúrgica, a fibra permite trabalhar em espaços onde um instrumento de energia convencional é mais difícil de posicionar.

Isso é uma descrição de comportamento físico, não uma afirmação de desfecho. Equipamento e tecnologia não garantem desfecho superior, e é justamente a distância entre a promessa de uma tecnologia e o que a evidência sustenta que dá tema a esta conversa.

A assimetria que organiza a literatura

Quem procura evidência de laser de diodo em ginecologia encontra dois cenários muito diferentes.

Na histeroscopia, o terreno é relativamente consolidado. Uma revisão sistemática reuniu oito estudos e 474 pacientes tratadas por via histeroscópica com laser de diodo — pólipos endometriais, miomas submucosos, metroplastias —, com taxas cumulativas de complicação intraoperatória de 2,7% e pós-operatória de 0,6% (referência 8). Revisões de escopo descrevem a tecnologia como versátil nesse ambiente, pela ação simultânea de corte e coagulação (referência 9).

Na laparoscopia, o cenário é outro. A descrição mais antiga em ginecologia é um relato de caso brasileiro, de 2000, de microlaparoscopia com laser de diodo em gestação ectópica íntegra associada a endometriose (referência 10). Vinte e cinco anos depois, o que existe são séries de dezenas de casos, e não ensaios comparativos.

Essa assimetria não é um detalhe bibliográfico: ela é o problema. Uma tecnologia pode estar bem estudada em um compartimento e mal estudada no outro, e transferir a confiança de um para o outro é um erro de raciocínio comum e caro.

O que existe na laparoscopia, e com que limite

Dois trabalhos concentram o que se tem.

Em endometriose profunda, um estudo retrospectivo de dois centros universitários acompanhou 50 pacientes operadas com laser de diodo de dupla emissão. O tempo cirúrgico médio foi de 147 minutos, a alta se deu em média em três dias, não foram registradas complicações intraoperatórias nem precoces até 30 dias, e houve melhora significativa de dor e de qualidade de vida aos 3, 6 e 12 meses (referência 3). É preciso dizer, na mesma frase, o que isso é: um estudo retrospectivo e sem grupo-controle. Ele fala de viabilidade e de segurança na experiência daquele serviço, não de superioridade — e os próprios autores encerram pedindo ensaios randomizados.

Em endometrioma ovariano, um ensaio clínico prospectivo multicêntrico tratou 70 pacientes por vaporização da cápsula com laser de diodo, sem a técnica de stripping. O hormônio antimülleriano diferiu do valor basal aos três meses e retornou a valores próximos dos pré-cirúrgicos nos meses seguintes; a contagem de folículos antrais do ovário operado aumentou aos 6 e aos 12 meses; houve gestação em 48,3% das pacientes inférteis tratadas e recidiva em 5,7% em 12 meses (referência 4). Também aqui o desenho manda: é um estudo de braço único, sem comparador. Ele não autoriza a frase "melhor que a cistectomia".

O contraponto que precisa ser dito

Há um achado que corre na direção oposta e que seria desonesto omitir. Um estudo experimental comparou, em 60 ovários bovinos, o impacto macroscópico, microscópico e térmico da coagulação monopolar, da bipolar, do laser de diodo e do plasma de argônio. Com cinco segundos de aplicação, 41,7% dos ovários submetidos à bipolar superaqueceram, e o plasma de argônio em modo preciso produziu o defeito mais raso de todas as técnicas. A conclusão dos autores aponta um perfil de segurança superior do argônio preciso e do monopolar em relação à bipolar, ao laser de diodo e ao argônio forçado em cirurgia ovariana laparoscópica (referência 5).

O estudo é ex vivo, em tecido bovino, e essa limitação é real. Mas o ponto se sustenta: a literatura não converge, e é exatamente por não convergir que faz sentido pesquisar o assunto.

O preço da energia em reserva ovariana

Existe uma pergunta anterior à escolha do laser, e ela é sobre energia em geral. Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida no Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Santa Casa de São Paulo reuniu 12 ensaios e 1.047 pacientes para comparar métodos de hemostasia após cistectomia laparoscópica por stripping. A sutura foi superior à coagulação bipolar em hormônio antimülleriano e em contagem de folículos antrais no primeiro, terceiro, sexto e décimo segundo mês; os selantes hemostáticos também se saíram melhor que a bipolar; e a energia ultrassônica não foi superior à bipolar. A recomendação dos autores é a sutura (referência 1).

Duas leituras importam. A primeira é que a escolha da fonte de energia cobra um preço mensurável em reserva ovariana — esse é o pano de fundo de qualquer discussão sobre tecnologia aplicada ao ovário. A segunda é uma advertência de citação: o laser não entrou nessa meta-análise. Ela não pode ser usada para dizer que o laser é melhor do que qualquer coisa.

Onde a tecnologia muda a decisão, e onde não muda

Dois ensaios randomizados compararam vaporização a laser e stripping em endometrioma e favoreceram a vaporização em marcadores de reserva ovariana — um deles com 60 pacientes, o outro um piloto autocontrolado com 16 pacientes e endometriomas bilaterais, em que cada ovário da mesma paciente recebeu uma técnica (referências 6 e 7). Os dois são de laser de CO2, não de diodo, e resultado de um laser não se transfere para o outro. Um ensaio randomizado multicêntrico em curso pretende comparar técnica combinada e vaporização isolada, com o antimülleriano como desfecho primário (referência 11) — o que ele indica, por enquanto, é o tamanho da lacuna.

No acometimento intestinal profundo, vale separar com clareza duas decisões que costumam ser confundidas. A decisão de técnica continua sendo entre shaving, nodulectomia linear, ressecção discoide e ressecção segmentar, e é governada pela extensão da lesão, pelo grau de acometimento circunferencial, pela distância da margem anal e pelo desejo reprodutivo da paciente. A escolha da fonte de energia é uma decisão diferente, e menor: ela pode facilitar a execução de uma técnica, mas não substitui a indicação. Confundir as duas é transformar uma questão de estratégia cirúrgica numa questão de equipamento.

O que este episódio quer que fique para quem está começando

Uma tese não se justifica por confirmar que uma tecnologia funciona. Ela se justifica por medir alguma coisa que ainda não estava medida — e por dizer, com todas as letras, o que continuou sem resposta depois de medida. A pergunta "o que o seu estudo não responde" não é uma cobrança; é o que separa um trabalho científico de um material promocional.

Para levar

  • O laser de diodo é uma fonte de energia com corte e coagulação simultâneos, hoje empregada em ginecologia sobretudo com dupla emissão em 980 e 1470 nm. Tecnologia não garante desfecho superior.
  • A evidência em ginecologia é assimétrica: consolidada na histeroscopia (474 pacientes em revisão sistemática) e incipiente na laparoscopia (séries de dezenas de casos).
  • Os dois estudos laparoscópicos disponíveis têm limites de desenho que precisam ser ditos junto com o resultado: um é retrospectivo e sem controle; o outro, de braço único e sem comparador.
  • Há evidência experimental que não favorece o laser de diodo em tecido ovariano — e ela faz parte do quadro.
  • Os ensaios randomizados que favorecem a vaporização em endometrioma são de laser de CO2, não de diodo.
  • No acometimento intestinal profundo, a decisão de técnica — shaving, nodulectomia linear, ressecção discoide ou ressecção segmentar — é anterior e superior à escolha da fonte de energia.
  • A pergunta que qualifica uma pesquisa é o que ela não responde.

Referências

  1. 1.Baracat CMF, Abdalla-Ribeiro HSA, Araujo RSC, Bernardo WM, Ribeiro PA. The impact on ovarian reserve of different hemostasis methods in laparoscopic cystectomy: a systematic review and meta-analysis. Rev Bras Ginecol Obstet. 2019;41(6):400-8. PMID 31247669. https://doi.org/10.1055/s-0039-1692697
  2. 2.Lobão Gonçalves AL, Ayroza-Ribeiro HA, Lima RF, Yonamine AEE, Ohara F, Ayroza-Ribeiro PAG. The impact of systematic laparoscopic skills and suture training on laparoscopic hysterectomy outcomes in a Brazilian teaching hospital. Rev Bras Ginecol Obstet. 2019;41(12):718-25. PMID 31856291. https://doi.org/10.1055/s-0039-1700587
  3. 3.Angioni S, Nappi L, Sorrentino F, Peiretti M, Daniilidis A, Pontis A, et al. Laparoscopic treatment of deep endometriosis with a diode laser: our experience. Arch Gynecol Obstet. 2021;304(5):1221-31. PMID 34448038. https://doi.org/10.1007/s00404-021-06154-z
  4. 4.D'Alterio MN, Nappi L, Vitale SG, Agus M, Fanni D, Malzoni M, et al. Evaluation of ovarian reserve and recurrence rate after DWLS diode laser ovarian endometrioma vaporization (OMAlaser): a prospective, single-arm, multicenter, clinical trial. J Minim Invasive Gynecol. 2025;32(3):279-87. PMID 39477011. https://doi.org/10.1016/j.jmig.2024.10.021
  5. 5.Stefanovic S, Sütterlin M, Gaiser T, Scharff C, Neumann M, Berger L, et al. Microscopic, macroscopic and thermal impact of argon plasma, diode laser, and electrocoagulation on ovarian tissue. In Vivo. 2023;37(2):531-8. PMID 36881055. https://doi.org/10.21873/invivo.13111
  6. 6.Candiani M, Ottolina J, Posadzka E, Ferrari S, Castellano LM, Tandoi I, et al. Assessment of ovarian reserve after cystectomy versus 'one-step' laser vaporization in the treatment of ovarian endometrioma: a small randomized clinical trial. Hum Reprod. 2018;33(12):2205-11. PMID 30299482. https://doi.org/10.1093/humrep/dey305
  7. 7.Rius M, Gracia M, Ros C, Martínez-Zamora MA, deGuirior C, Quintas L, et al. Impact of endometrioma surgery on ovarian reserve: a prospective, randomized, pilot study comparing stripping with CO2 laser vaporization in patients with bilateral endometriomas. J Int Med Res. 2020;48(6):300060520927627. PMID 32527167. https://doi.org/10.1177/0300060520927627
  8. 8.Etrusco A, Buzzaccarini G, Laganà AS, Chiantera V, Vitale SG, Angioni S, et al. Use of diode laser in hysteroscopy for the management of intrauterine pathology: a systematic review. Diagnostics (Basel). 2024;14(3):327. PMID 38337843. https://doi.org/10.3390/diagnostics14030327
  9. 9.Vitale SG, Mikuš M, De Angelis MC, Carugno J, Riemma G, Franušić L, et al. Diode laser use in hysteroscopic surgery: current status and future perspectives. Minim Invasive Ther Allied Technol. 2023;32(6):275-84. PMID 37584381. https://doi.org/10.1080/13645706.2023.2247483
  10. 10.Abrao MS, Ikeda F, Podgaec S, Pereira PP. Microlaparoscopy for an intact ectopic pregnancy and endometriosis with the use of a diode laser: case report. Hum Reprod. 2000;15(6):1369-71. PMID 10831571. https://doi.org/10.1093/humrep/15.6.1369
  11. 11.Bafort C, Lie Fong S, Fieuws S, Geysenbergh B, Nisolle M, Squifflet JL, et al. Conservative endometrioma surgery: the combined technique versus CO2-laser vaporization only (BLAST: Belgium LAser STudy): clinical protocol for a multicenter randomized controlled trial. PLoS One. 2025;20(3):e0315709. PMID 40048474. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0315709

Revisão científica: Prof. Dr. Paulo Ayroza Ribeiro

Educação médica independente e continuada. Conteúdo em camada aberta — CFM 2.336/2023. A IA apoia a decisão; quem decide, e responde, é o médico. Nenhum dado ou imagem de paciente é veiculado.
Profa. Dra. Helizabet Salomão Abdalla Ayroza RibeiroCRM 85949/SP · RQE 56380 · Ginecologia e Obstetrícia
Prof. Dr. Paulo Ayroza RibeiroCRM 60.560/SP · RQE 77239 · Ginecologia e Obstetrícia